quinta-feira, 1 de maio de 2008
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Eu sou a lenda - Richard Matheson
Depois de ler “Eu sou a lenda” (I am legend - 1954), de Richard Matheson, fica fácil entender porque a sua fiel legião de fãs é tão descontente com as adaptações cinematográficas desta obra já feitas até o presente.
A versão homônima, de 2007, dirigida por Francis Lawrence e estrelada por Will Smith, foi precedida por "The Last Man on Earth" de 1964 (com Vincent Price e com o título em português de “Mortos que matam”) e "The Omega Man" de 1971 (com a atuação do inigualável Charlton Heston, cujo título em português é “A última esperança da Terra”).
As duas películas mais recentes pecam ao colocarem de lado, quase integralmente, o enredo e os fatos mais relevantes do livro, o que acaba retirando um considerável potencial que os mesmos poderiam atingir caso atentassem à fidelidade. Já o mais antigo dos três, mesmo sendo o mais fiel à obra de Matheson, é uma produção limitada e pouco divertida, mesmo considerados os padrões da época.
No livro somos apresentados a Robert Neville, um homem que transformou sua casa em uma “fortaleza”, onde ele passa suas insólitas noites isolado, perambulando durante o dia e tentando sobreviver em um mundo onde ele parece ser o último de sua raça, cercado por criaturas que foram afetadas por uma misteriosa doença, que transformou todos, mortos ou vivos, em uma espécie de vampiros. A narrativa é brilhantemente estruturada em doses, mantidas em um ritmo soturno de intenso suspense até a última página.
O escritor e roteirista americano é considerado fonte de inspiração máxima por inúmeros escritores e entusiastas do gênero “horror fiction”, inclusive pelo mestre Stephen King, que chegou a dizer: "without Richard Matheson I wouldn’t be around.".
O fato é que “Eu sou a lenda” redefiniu e popularizou um gênero que ficaria famoso nos anos seguintes com livros, filmes, histórias em quadrinhos e toda uma “cultura” sobre zumbis e uma espécie de novo-vampirismo, ligado à idéia de um apocalipse oriundo de causas biológicas.
Leitura bastante gratificante, ainda mais diante do meu inesgotável prazer em corroborar o que eu já sei – que o livro sempre é melhor que o filme.
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domingo, 24 de fevereiro de 2008
Harry Potter e a Pedra Filosofal - JK Rowling

Harry Potter e a Pedra Filosofal (Harry Potter and the Philosopher's Stone, 1997)
À primeira vista, mesmo para os olhares nada preconceituosos, podem parecer unicamente destinadas ao público infantil as aventuras de um jovem garoto que se descobre bruxo e passa a estudar na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.
Porém, é seguro dizer que os livros da série Harry Potter estão muito além de um rótulo tão limitador e simplista. O dom da britânica Joanne Kathleen Rowling para contar histórias - de um modo prazeroso e envolvente - é tão brilhante quanto raro, ainda mais nestes tempos onde a mesmice parece ganhar cada vez mais terreno em vários campos das diversas artes.
O mundo de fantasias criado por esta talentosa escritora nos cativa de um modo viral logo nas primeiras páginas de “Harry Potter e a pedra filosofal”, sendo muito difícil não querer ter logo em mãos todos os próximos volumes.
Pode parecer um atraso falar deste livro após tanto tempo desde seu lançamento, mas é preciso compreender que muitos não gostam de ler grandes sucessos literários quando dos seus lançamentos, preferindo analisá-los longe do fervor das emoções que envolvem as discussões referentes a best-sellers.
Esta resenha não pode, nem poderia pretender ser, uma análise de toda a saga do jovem Potter, até mesmo porque o autor deste blog ainda não transpôs as barreiras do quarto volume da obra, de modo que a presente resenha é simbólica e provisória diante de todos os livros da série, apesar de apenas destacar o títutlo de “Harry Potter e a Pedra Filosofal”. Entretanto, é possível falar um pouco sobre a criadora de todos estes relatos fantásticos.
Expulsa de casa pelo marido após uma briga, Rowling teve que cuidar de sua primeira filha enquanto tentava reconstruir sua vida e enquanto vivia contando apenas com o seguro-desemprego. A feroz força de vontade da autora encontrou o precioso dom de contadora de histórias, fazendo nascer, na mesa de locais como coffee shops, em Edimburgo, "Harry Potter e a pedra filosofal", o primeiro da série e, logo de cara, um sucesso mundial. Todavia, os rudimentos e principais personagens do seu primeiro livro já estavam sendo criados há alguns anos.
Longe de ser, como já se disse, uma leitura aprazível apenas ao público infanto-juvenil, os livros de Rowling sabem como apaixonar todos aqueles que admiram uma história muito bem contada.
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101 dias em Bagdá - Åsne Seierstad
101 dias em Bagdá
(Hundre og én dag: En reportasjereise, 2006)
A primeira coisa que vi foi a luz. Penetrou-me pelas pálpebras, abriu caminho pelo sono com carícias e deslizou até o sonho. Não era como a luz da manhã que eu costumava ver, não era branca e fresca, mas sim dourada. Com os olhos entreabertos em frente a uma janela com grandes cortinas de tule, entrevejo as poltronas estampadas, uma mesa bamba, um espelho e um armário. Há um esboço mal pintado na parede de um bazar no qual sombras de mulheres com grandes xales pretos deslizam pelas ruelas lúgubres.
Estou em Bagdá!
A norueguesa Åsne Seierstad, mais conhecida por seu best-seller "O livreiro de Cabul", também é autora de "101 dias em Bagdá", obra jornalística na qual ela demonstra toda sua competência e experiência como correspondente de guerra. Åsne já havia participado da cobertura jornalística de confrontos na Sérvia e no Afeganistão, provendo informes e matérias para diversas agências de notícias do globo.
Além dos usuais relatos da própria guerra, este livro destaca-se pelos ricos detalhes da cultura e dos costumes iraquianos, e também pela exposição das dificuldades compartilhadas pelos jornalistas e civis durante as amargas privações e provações dos períodos bélicos. É dividido em três partes, que integram os fatos anteriores à invasão do exército americano, o período durante a ocupação e, por fim, as conseqüências e desfechos dos acontecimentos.
Alguns críticos consideram “101 dias em Bagdá” uma narração monótona e desinteressante, pelo fato de a autora, ao querer retratar a Bagdá anterior ao ataque dos americanos, ter esbarrado em iraquianos que não ousavam censurar os atos de Saddam Hussein e tampouco criticavam abertamente o regime instalado no país. Os doutrinados iraquianos se limitavam a repetir velhas frases de ordem e ódio aos norte-americanos e seus aliados, sempre as mesmas, e, obviamente, frases igualmente pré-elaboradas sobre seu endeusado líder.
Além disso, os tradutores da autora não ajudavam muito no trabalho de coleta de informações. Ora, mas será que, mesmo neste cenário negativo, o registro do silêncio de toda uma nação diante de uma opressão com ares de divina não merece realce? É possível sim surpreender-se - e muito - com a exposição do cotidiano de uma cidade e um povo, aterrorizados e desorientados tanto pelo incoerente e insano Hussein como pela iminência da invasão americana.
"101 dias em Bagdá" tem uma narrativa peculiar, fundada na lucidez da autora, que sabe ser cautelosa nos momentos mais dramáticos dos acontecimentos, sem, todavia, deixar de manter sua ousadia na maioria dos transtornos e perigos vivenciados.
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sábado, 23 de fevereiro de 2008
Os Nazistas e a Solução Final - Mark Roseman
“Mas o Protocolo é ainda mais revelador. Com gélida precisão, Heydrich esclareceu que a morte dos judeus aptos ao trabalho estava programada. Eles seriam ou esmagados pelas condições de trabalho ou assassinados por terem sido resistentes o bastante para sobreviver a elas.”
Este livro do historiador e professor da Universidade de Southampton, Mark Roseman, expõe em todos os detalhes a negativamente famigerada Conferência de Wannsee. Certamente, a maior relevância desta obra é expor as misteriosas origens de um triste fato histórico, que muitos conhecem apenas em suas conseqüências, seguramente mais óbvias e notórias.
A reunião, envolvendo proeminentes membros do Partido Nazista, oficiais da SS e alguns funcionários civis de certa relevância, foi realizada às margens do lago Großer Wannsee, nos subúrbios de Berlin, em 20 de janeiro de 1942. Apesar de ter durado apenas noventa minutos, neste encontro foi possível expor as linhas mestras sobre as quais iria se desenrolar um dos mais cruéis genocídios da história da humanidade.
Das trinta cópias do Protocolo de Wannsee (ata, do alemão Protokoll), apenas uma sobreviveu ao fim da guerra e foi descoberta por assistentes de um promotor americano durante a coleta de documentos para o Julgamento de Nuremberg. E foi exatamente essa cópia, de número 16, que descortinou ao mundo a frieza que ilustraria o Nazismo para as gerações futuras.
Entre guloseimas, drinques e charutos, os descontraídos participantes da Conferência de Wannsee debateram aquilo que já havia sido feito com relação aos judeus até 1941, bem como discutiram o que já se denominava, àquele momento, de “solução final da questão judaica” (Endlösung der Judenfrage), esclarecendo alguns pontos controversos e ratificando tudo o quanto Hitler e Himmler já haviam determinado. A reunião era a ocasião para apresentar, aos diversos atores do staff nazista, os planos e diretrizes daquilo que viria a ser o holocausto dos judeus pelo nazismo. Na linguagem eufêmica do documento, debatia-se quanto à “evacuação” de judeus para o leste.
Os trabalhos naquele dia foram conduzidos por Reinhard Heydrich (foto ao acima), o jovem SS-Obergruppenführer (General da SS), de apenas 37 anos, mas que já era chefe do Reichssicherheitshauptamt (líder de um corpo que incluía a Gestapo, a polícia criminal nazista e a SD - Sicherheitsdienst), um dos capachos mais próximos de Himmler, mas que já havia saído da sombra deste. Ironicamente, Heydrich, que capitaneara a conferência e, com isso, havia angariado respeito e poder, morreria em um atentado em Praga, meses depois.
A densidade das informações pode entediar os leitores menos acostumados a livros históricos sobre temas velados, apenas vislumbráveis por dados documentais extremamente burocráticos, envolvendo muitos memorandos, comunicações, números, cálculos e disposições logísticas.
Mesmo assim, esta obra não deixa de ser uma leitura necessária a todos que queiram descobrir como os nazistas discutiram, esclareceram, planejaram e executaram a morte cruenta de seis milhões de judeus, além de ciganos, alemães opositores ao nazismo, e outras minorias.
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domingo, 11 de novembro de 2007
Milagre nos Andes - Nando Parrado e Vince Rause
Milagre nos Andes: 72 dias na montanha e minha longa volta para casa (Miracle in the Andes: 72 days on the mountain and my long trek home - 2006)
"Cochilei um pouco, uma meia hora talvez, e então despertei, assustado e desorientado, com uma força enorme pressionando o meu peito. Alguma coisa estava muito errada. Senti uma umidade gelada contra o rosto e um peso enorme me esmagava de tal forma que expulsava o ar dos meus pulmões. Após um instante de desorientação, entendi o que acontecera – uma avalanche havia descido a montanha e enchido a fuselagem de neve. Houve um momento de silêncio total, então ouvi um rangido lento, líquido, à medida que a neve solta se assentava sobre o próprio peso e se depositava ao meu redor como uma rocha. Tentei me mexer, mas meu corpo parecia estar envolto em concreto e não conseguia mover um dedo. Consegui algumas respirações curtas, mas logo a neve se amontoou na minha boca e nas minhas narinas e comecei a sufocar.”
No dia 13 de outubro de 1972, um avião da Força Aérea Uruguaia, transportando 45 pessoas, caiu na inóspita Cordilheira dos Andes. Entre os passageiros estavam os jogadores do time uruguaio de rugby “Old Christians”, alguns torcedores e familiares, que iam participar de uma partida amistosa na capital do Chile. Os terríveis e impressionantes acontecimentos vividos pelos sobreviventes foram narrados, pouco tempo depois, no chocante livro “Os sobreviventes: a tragédia dos Andes” (Alive: The Story of the Andes Survivors, 1974), do britânico Piers Paul Read, que fez muito sucesso e inspirou ainda o filme “Vivos” (Alive, 1993), do diretor Frank Marshall.
Em 2006, lançou-se “Milagre nos Andes”, co-escrito por um dos sobreviventes, Fernando Seler “Nando” Parrado, e o norte-americano Vince Rause.
Muitos poderiam questionar qual seria a aceitação de mais um livro sobre um fato já relatado, ainda mais como o foi no livro de Piers Paul Read, extremamente detalhista e fielmente baseado em relatos dos sobreviventes.
Vince Rause sentiu esta mesma dúvida ao ser convidado para co-escrever “Milagre nos Andes”, ainda mais com os auxílios de um sobrevivente, com incertos dotes de narrador, como ele pensou. Nos agradecimentos do livro ele mesmo relata com clareza este momento de insegurança, que apenas durou até a primeira conversa que teve com Nando Parrado.
O diferencial deste livro não reside apenas no fato de ele ser co-escrito por um dos sobreviventes, mas também em razão da singular visão de Nando Parrado que, com sua sensibilidade e angústias mais íntimas, levam o leitor a reflexões que vão desde os pensamentos mais tolos e desesperados até o extremo dos questionamentos sobre a existência de Deus. Todavia, é óbvio que um relato feito diretamente por um sobrevivente é mais vigoroso e, neste caso, acaba criando uma nova maneira de encarar todas as amarguras e dificuldades sofridas nos Andes, desde as providências tomadas imediatamente após a queda, passando pela agressividade climática nas montanhas, como também nas considerações sobre o uso do canibalismo como meio de sobrevivência e os sacrifícios na busca de ajuda.
Sem quaisquer exageros, logo após as primeiras páginas de “Milagre nos Andes” já é possível perceber se tratar de um daqueles livros que não serão largados até o seu fim.
Eis uma obra que acaba sendo uma feliz surpresa em meio às enfadonhas prateleiras de best-sellers e livros vendidos em supermercados.
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segunda-feira, 3 de setembro de 2007
A sangue frio - Truman Capote
A sangue frio (In cold blood, 1965)
“Na confissão, Smith dissera: ‘Não queria fazer mal. Me parecia um cavalheiro muito distinto. De fala macia. Até a hora de cortar o pescoço dele eu achava isso’ ”.
À época em que Truman Capote decidiu escrever “A sangue frio”, em 1959, ele já era um célebre escritor norte-americano, bastante conhecido por seus livros, contos e peças teatrais, muitos destes adaptados para o cinema e para a TV. Após finalizar e lançar “A sangue frio”, seis anos depois, ele seria mais reconhecido ainda.
Capote, bem relacionado na roda da fama de seu país, era popular por sua irreverência, seus trejeitos afeminados, sua voz extremamente aguda e um jeito extravagante de se vestir, além de inúmeros outros maneirismos bem característicos, que o tornaram uma figura notória e igualmente excêntrica. Entre suas obras, já se destacavam “Outras vozes, outros lugares” (Other voices, other rooms, 1948) e “Bonequinha de luxo” (Breakfast at Tiffany's, 1958).
Em novembro de 1959, Capote ficou instigado ao ler jornais com as primeiras notícias sobre o brutal assassinato de quatro membros de uma tradicional família de fazendeiros de uma tranqüila cidade do estado do Kansas. Herb Clutter e sua esposa Bonnie, além de seus filhos Kenyon e Nancy (15 e 16 anos, respectivamente), haviam sido amarrados e mortos com tiros de espingarda na cabeça. Não havia qualquer pista sobre os assassinos e todo o caso era um abstruso mistério.
A revista “The New Yorker”, para a qual Truman trabalhava, o enviou para escrever um artigo detalhado sobre crime. Já no Kansas, ele logo pediu mais tempo e mais dinheiro, pois sentia ali o nascimento de um livro que seria, como ele mesmo já antevia, um enorme sucesso, um marco, um “romance de não ficção” (non-fiction novel) – como ele mesmo batizou. Para compor a obra, Capote entrevistou os concidadãos e amigos das vítimas, autoridades policiais e indivíduos de todos os locais por onde caça aos criminosos passou. Ao colecionar e encadear os detalhes e fatos na ordem em que foram sendo esclarecidos, o autor faz com que o leitor repita a frenética viagem feita por ele, em busca da verdade.
Ele estava certo e, com seu pioneirismo e aquela alcunha, acabou criando um gênero literário.
Este livro de Capote acabou se firmando como um indiscutível marco na literatura mundial e na história do jornalismo investigativo. Unindo a objetividade dos textos jornalísticos com as vicissitudes de uma narrativa romancista, “A sangue frio” consegue ser uma longa reportagem, mas que pode perfeitamente ser lida como um excelente romance, trazendo ainda valiosas reflexões sobre a pena de morte.
Fruto de seis anos de extenuante trabalho, eis uma obra forte, real ao extremo e religiosamente fiel aos fatos em todos os seus detalhes, narrados com uma concatenação capaz de afetar profundamente mesmo os mais impassíveis leitores. Um clássico da literatura mundial.
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domingo, 5 de agosto de 2007
O pianista - Władysław Szpilman
“Estava só. Não no prédio, nem mesmo no bairro, mas em toda a cidade. Uma cidade que ainda há pouco tinha um milhão e meio de habitantes e fora um das mais ricas e mais belas da Europa. Hoje, no entanto, jazia em ruínas. Sob os escombros dos seus edifícios queimados e destruídos estavam soterradas as preciosidades culturais de todo o país acumuladas por séculos e os milhares de corpos de seres assassinados que se decompunham no calor dos últimos dias de outono.”
"O pianista", do polonês Władysław Szpilman, pode ser considerado um dos mais valiosos e autênticos relatos da Segunda Guerra Mundial. O autor narra os horrores de uma guerra que atingiu a sua outrora bucólica Varsóvia, capital do país que foi o primeiro alvo de Hitler que precisou ser invadido violentamente com o aparato militar nazista em sua campanha expansionista, pois a Tchecoslováquia e Áustria foram territórios anteriormente anexados por mera pressão diplomática ou artimanhas políticas.
Escrito logo após o fim da guerra em 1945, o livro tinha o título original de “Morte de uma cidade” (Śmierć Miasta), que foi duramente fustigado pelo comunismo polonês do pós-guerra. Por isso, foi reeditado apenas em 1998 como “O pianista” (Pianista).
Retirado de sua rotina por um combate que se encontrava às portas de sua cidade, Szpilman, um pianista que trabalhava em uma rádio, passa a ver concidadãos e familiares desaparecerem, e atos antes tão comuns, como atravessar uma rua ou matar a sede, passaram a ser problemas extremos de sobrevivência, como que pequenas amostras daquela gigantesca e cruel guerra.
O fascinante nos relatos de Szpilman não são os fatos em si, mas o modo como estes são contados. Sem ira, sem julgamentos e sem valorações. Em vez de tais traços - infelizmente tão comuns em livros do gênero - percebe-se um testemunho clínico, claro e preciso. Não se vêem adjetivações nem intervenções narrativas. A nudez dos relatos faz com que o autor pareça ser um 'fantasma', uma vítima que não conseguiu sobreviver aos terrores nazistas e, não tendo mais nada a perder nem a ganhar, apenas conta sua tragédia imparcialmente, sem se preocupar com mais nada.
Szpilman, um dos poucos judeus sobreviventes de Varsóvia que não foi enviado para um campo de concentração, demonstra uma grandeza de caráter extraordinária, ao relatar a destruição de sua família, seus amigos, sua cidade e sua liberdade com tamanha frieza e responsabilidade.
"O pianista" representa a mais perfeita definição do ato de testemunhar e reserva unicamente aos leitores a possibilidade de fazer julgamentos.
Um triste marco na história da humanidade, registrado de uma forma assombrosamente fiel e realista. É como reviver um pesadelo através dos olhos de Szpilman.
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segunda-feira, 16 de julho de 2007
O carteiro e o poeta - Antonio Skármeta
O carteiro e o poeta (Ardiente paciencia - 1985)
"(...) Mas também queria pedir uma coisa, Mario, que só você pode cumprir. Todos os meus amigos ou não saberiam o que fazer ou pensariam que sou um velho caduco e ridículo. Quero que você vá com este gravador passeando pela Ilha Negra e grave todos os sons e ruídos que vá encontrando. Preciso desesperadamente de algo, nem que seja o fantasma da minha casa. A minha saúde não anda nada bem. Sinto falta do mar. Sinto falta dos pássaros. Mande para mim os sons da minha casa. Entre no jardim e faça soar os sinos. Primeiro grave esse repicar suave dos sininhos pequenos quando o vento bate neles, e depois puxe o cordão do sino maior cinco, seis vezes. Sinos, meus sinos! Não há nada que soe tão bem como a palavra sino se a pendurarem num campanário junto ao mar. E depois vá até as pedras e grave a arrebentação das ondas. E se ouvir o silêncio das estrelas siderais, grave (...)”
Eis uma obra que guarda curiosas singularidades em seu processo de concepção. Antonio Skármeta, chileno descendente de croatas, escreveu primeiramente “Ardiente paciencia” na Alemanha, para a difusão em uma rádio daquele país em 1985 e, apenas posteriormente, publicou a história no formato livresco, no mesmo ano.
Mario Jiménez, um pobre pescador que mora com seu pai, descobre desde bem cedo a sua completa inaptidão para os labores marítimos e, além disso, para o dissabor de seu genitor, mostra-se preguiçoso para certas tarefas e demonstra uma frágil saúde face às influências de um clima litorâneo. Por outro lado, é demasiado apaixonado por filmes e, às custas do pai, ocasionalmente satisfaz seu prazer no cinema da comuna de San Antonio. Todavia, a raridade de tal deleite faz com que um dia, ao se defrontar com um anúncio de vaga, o jovem Mario tome a iniciativa de entrar na agência de correios de sua localidade e prontamente se ofereça para o preenchimento de uma vaga de carteiro.
Seu chefe logo lhe adianta que, num local apinhado de pescadores e pessoas humildes, Mario apenas terá um destino, que é a casa do único homem de Ilha Negra que recebe correspondências, e as recebe em enorme quantidade: Pablo Neruda.
O que inicialmente era apenas uma admiração curiosa passa a ser uma forte amizade entre o poeta, Prêmio Nobel de Literatura de 1971, e o carteiro. Mario anseia, com uma paciência quase indômita (daí o título original), que Neruda lhe dedique um livro, e que o faça com uma fartura de palavras. A peculiar afeição entre os dois se intensifica na medida em que Mario descobre em sua sensibilidade o dom poético e o deslumbre pelas metáforas, bem como, principalmente, quando descobre seu amor por uma jovem conterrânea.
“O carteiro e o poeta” é uma obra sobre poesias, tanto aquelas escritas quanto as vivenciadas, em uma descarada homenagem à poética por vezes escondida no cotidiano, que lateja apenas aos olhares mais sensíveis. A linguagem é bastante característica, no melhor estilo dos escritores latino-americanos e, neste livro, notadamente intensa, com um humor sutil, muita ironia, bem como um erotismo marcante e saboroso. As metáforas são muito mais que meros detalhes neste mundo que mescla ficção e realidade, criado por Skármeta, alcançando a posição de protagonistas, peças fundamentais neste enredo – quem lê “O carteiro e o poeta” dá um novo significado às metáforas.
O enredo é temperado por alguns fatos da política chilena, sem que isso signifique que tais detalhes sejam colocados no eixo principal da obra. Skármeta inicia o relato em 1969, passando pelo governo de Salvador Allende, deposto pelo sangrento golpe militar do paspalhão General Augusto Pinochet. É no fim de “O carteiro e o poeta”, um livro que, acima de tudo, fala sobre amizade e amor, que percebemos um leve protesto à fétida mancha histórica representada pelas arcaicas e ridículas ditaduras da América Latina.
A obra de Skármeta inspirou duas adaptações para o cinema, sendo que a última destas é bem mais conhecida. Trata-se de “Il postino”, de 1994, dirigido por Michael Radford, e que traz algumas adaptações: a história se passa na Itália pós- guerra (1945), Mario é bem mais velho e tem o sobrenome Ruoppolo, e Neruda encontra-se exilado naquele país, além de outras sutis alterações que em nada maculam a beleza do filme, que no Brasil recebeu o mesmo título do livro (inclusive, o sucesso estrondoso dos filmes fez com que Skármeta mudasse o título original para “El cartero de Neruda”).
Enfim, para terminar com uma recomendação, leia “O carteiro e poeta” e, se possível, assista “Il postino”, e, depois destas experimentações, aprenda a ver poesia, beleza e, acima de tudo metáforas, em todos os lugares, mesmo nos mais rotineiros detalhes da vida.
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sábado, 23 de junho de 2007
Memória de minhas putas tristes - Gabriel García Márquez
Memória de minhas putas tristes (Memoria de mis putas tristes - 2004)
"No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, você vai ver. Era um pouco mais nova que eu, e não sabia dela fazia tantos anos que podia muito bem estar morta. Mas no primeiro toque reconheci a voz no telefone e disparei sem preâmbulos:
– É hoje.”
Gabriel García Márquez, Prêmio Nobel de Literatura de 1982, lançou esta curtíssima obra após longos anos sem publicar novidades. Em razão deste longo período de abstinência, muitos leitores não se satisfizeram ou acabaram menoscabando “Memória de minhas putas tristes”.
O certo é que não se trata de um romance propriamente dito, por ser um livro demasiado curto - mas não tão breve a ponto de ser considerado apenas um conto. O importante é ter em mente que este é um livro explicitamente despretensioso no qual, certamente, o autor não buscou criar um épico da literatura mundial, e sim expor algumas reflexões sobre vida, amor e a fusão indissociável destes dois fatores em todos nós. Em suma, pode-se apenas dizer que se trata de uma deliciosa e surpreendente leitura, rápida, porém marcante, que mostra quão irrelevantes são quaisquer discussões quanto ao seu número de páginas.
O enredo se desenvolve com as reflexões de um escritor já em avançada idade, que passou a vida toda desenvolvendo tarefas em uma redação de um certo jornal, as quais reputa desanimadoras, fúteis e inspiradoras de um fracasso, além de ter sido professor em escolas públicas, sem vocação e tato ou compreensão com os alunos.
Ao se tornar um nonagenário, o protagonista deseja presentear-se com uma noite de amor com uma virgem. A dona de um prostíbulo, conhecida de longas datas, em resposta à demanda que lhe fora apresentada, consegue uma menina de 14 anos. Ao ter seus encontros com o objeto de seu desejo, o velho senhor se apaixona pela figura adormecida da menina e passa a dedicar todo seu amor àquela nova criatura, surgida em sua vida apenas nestes momentos finais.
São inegáveis as influências oriundas de “A casa das belas adormecidas”, de Yasunari Kawabata, cuja história trata de um bordel onde os anciões pagam para vislumbrar mulheres sem poder tocá-las, enquanto estas permanecem dopadas e em sono profundo (um trecho desta obra do autor japonês prefacia o livro de García Márquez).
É impossível não notar no relato leves traços biográficos de Márquez e, exatamente por isto, percebe-se que o autor, em “Memória de minhas putas tristes”, utiliza-se do personagem para deixar transparecer muitas de suas reflexões.
Como não poderia deixar de ser, o livro é repleto de frases carregadas de filosofia e sentimentos, em uma notável linguagem flexível, contundente e arguta – digna de Márquez.
Em verdade, o grande trunfo de Márquez nesta obra é que, após a sua rápida leitura, o leitor é forçado a entrar em uma meditação profunda sobre amor, velhice, sexualidade e idealização, tudo embebido em uma atmosfera onírica e poética.
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segunda-feira, 21 de maio de 2007
O Código Da Vinci - Dan Brown
O Código Da Vinci (The Da Vinci Code - 2002) - Dan Brown
O norte-americano Dan Brown ganhou vultosa notoriedade com o best-seller “O Código Da Vinci”, que conta a alucinante aventura vivida por um professor de Harvard especializado em simbologia, Robert Langdon, ao lado de Sophie Neveu, uma criptógrafa francesa. Os dois enfrentam insólitas perseguições, desvendam incontáveis segredos, decifram códigos e mais códigos, correm inúmeros perigos e se deparam com mistérios assombrosos. Infelizmente e felizmente, este é o tipo de livro que deve ter o máximo de detalhes resguardados e, exatamente por esse motivo, esta singela resenha não se delongará mais acerca do enredo, de modo a não estragar o prazer alheio.
Brown é autor de outras quatro obras, sendo que uma destas ainda será lançada e sofreu certos atrasos em razão de um processo de plágio no qual o autor conseguiu demonstrar sua inocência – trata-se do livro “The Solomon Key”, ainda sem título em português e que conta a terceira aventura vivida pelo intrépido professor Langdon. Diferentemente do que muitos pensam, “O Código da Vinci” é o segundo livro cujo protagonista é Robert Langdon, sendo que o primeiro é “Anjos e Demônios” (Angels & Demons), de 2000.
A exemplo dos outros livros de Dan Brown, os acontecimentos em “O Código Da Vinci” se passam em pouquíssimos dias e alguns dos principais fatos transcorrem em questões de minutos, o que acaba dando um autêntico ritmo frenético ao enredo.
Devem passar longe de “O Código Da Vinci” indivíduos pouco imaginativos e os católicos fervorosos (melhor dizendo, todo e qualquer religioso extremista). Além disso, certamente terão uma leitura mais deleitosa aqueles que, mesmo que minimamente, saibam apreciar as artes em geral e traços culturais da história da humanidade. É conveniente chamar atenção para a belíssima edição ilustrada do livro, lançada em 2005 pela Sextante e que, indubitavelmente, enriquece a experiência do leitor.
Indiscutivelmente, um livro empolgante e extremamente viciante, que vai muito além dos limitadíssimos rótulos de “romance policial” ou “romance mystery”, sendo tão raro e surpreendente quanto um bom filme nestes hodiernos e monótonos tempos.
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domingo, 15 de abril de 2007
O homem que matou Getúlio Vargas - Jô Soares
O homem que matou Getúlio Vargas (1998)
Dimitri Borja Korosec, nascido na Bósnia em 1897, é filho de um anarquista sérvio e uma contorcionista brasileira que fugiu de sua pátria para acompanhar uma trupe circense. A mãe de Dimitri guarda uma peculiaridade em suas espúrias origens, uma vez que é filha de uma escrava com o coronel Manoel Vargas, pai de Getúlio Vargas.
Por influência de seu pai, o jovem Dimitri ingressa na Skola Atentatora, uma instituição que forma assassinos profissionais, especializados em atentar contra ditadores e políticos “opressores”. Todavia, o já obstinado rapaz, além de uma anomalia que o faz ter um dedo indicador a mais em cada mão, é caracterizado por ser explícita e exageradamente desastrado.
Após concluir seus “estudos” na delicada arte de matar, o jovem anarquista parte em uma inflexível cruzada tendente a exterminar todos os ditares e opressores do mundo. Em sua insólita jornada, Dimitri presencia o estopim da Primeira Grande Guerra, participa diretamente deste conflito, conhece Marie Curie e Mata Hari, sendo que esta última no Orient Express, passa pelo fantástico mundo Hollywoodiano, conhece Al Capone e a nata da máfia de Chicago e, dentre inúmeros outros destinos, passa pelo Brasil, tão mencionado por sua mãe e que lhe inspira várias curiosidades. As destinações e personalidades mencionadas acima são apenas exemplos de um enredo feito no melhor estilo “Forrest Gump” (1985), um livro de Winston Groom que baseou o filme de Robert Zemeckis.
E são nestas curiosas bases que Jô Soares estrutura - com maestria - “O homem que matou Getúlio Vargas”, uma simples, acessível e deliciosa obra que mistura inteligentemente História e ficção, absurdo e realidade. E essa combinação é feita com tanta perícia (e, principalmente, tanto cinismo) que o leitor não interrompe a leitura para se questionar acerca da veracidade ou coerência dos fatos, limitand0-se a devorar as páginas, aceitando como a mais pura verdade todas as passagens e acontecimentos da vida de Dimitri Borja Korosec.
Muitos resistem à leitura das obras de Jô Soares, por vezes fundamentando sua resistência na presumida personalidade egocêntrica do autor. Todavia, convém ressaltar que, mesmo que tais oposições possam ser pertinentes, elas não significam de modo algum uma suposta diminuição de qualidade dos escritos. Vale a pena ler esta preciosa obra, que quando é terminada deixa uma suave sensação de “querer mais”.
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segunda-feira, 2 de abril de 2007
O inverno da guerra - Joel Silveira
“Ao contrário do poeta, não foi exatamente por delicadeza que naqueles quase nove meses perdi parte de minha mocidade, ou o que restava dela. A guerra, repito, é nojenta. E o que ela nos tira (quando não nos tira a vida) nunca mais nos devolve.”
O ano era 1944. Na assolada Europa a Segunda Guerra Mundial já se encontrava nos princípios de um agonizante fim. No Brasil, o presidente dos “Diários Associados” (um enorme conglomerado empresarial da imprensa à época), Assis Chateaubriand, convocou o jornalista Joel Silveira para a cobertura das incursões da Força Expedicionária Brasileira na Itália fascista do tresloucado Mussolini; e o fez com as seguintes palavras, diante do já fardado jornalista de 26 anos: “Silveira, me faça um favor de ordem pessoal. Vá para a guerra mas não morra. Repórter não é para morrer, é para mandar notícias.”
E com esta ordem seguiu para a Itália o jovem e competente correspondente de guerra, que lá se juntou a Rubem Braga (Diário Carioca), Egydio Squeff (O Globo) e Thassilo Mitke (da Agência Nacional), além de ter convivido com muitos outros repórteres compatriotas e de outros países.
Escritos em forma de diário, alguns dos melhores textos de Joel são trazidos neste intenso e singular livro, onde nos são mostrados, com simplicidade e um certo lirismo, a rotina no front e o deslinde dos avanços da FEB. Tais relatos foram originalmente publicados no mesmo ano em que a Segunda Grande Guerra havia terminado – 1945 - no livro “Histórias de Pracinhas”. A atual edição, trazida pela Objetiva (vide foto acima), conta com um maravilhoso e inédito texto autor, que apresenta - com muita sensibilidade - a obra ao leitor, servindo também como um singelo desabafo aos anos e anos de comentários insensíveis e impensados, que insinuavam ter sido um mero “passeio” a participação do Brasil na guerra, bem como classificando como “fácil” o trabalho dos correspondentes na Itália.
“O inverno da guerra” pertence a uma primorosa coleção chamada “Jornalismo de Guerra”, da editora Objetiva, inaugurada com “A Queda de Bagdá”, de Jon Lee Anderson e que também conta com o excelente “O Gosto da Guerra”, de José Hamilton Ribeiro, repórter brasileiro que cobriu a guerra do Vietnã. Vale a pena dar uma olhada nesta arrebatadora coleção, que promete lançar os mais fortes e célebres relatos dos maiores conflitos bélicos dos séculos XX e XXI.
Enfim, este relato de Joel Silveira é indubitavelmente uma ótima oportunidade para conhecer, mesmo que superficialmente, alguns aspectos de um dos mais importantes episódios da história do Brasil, às vezes tão injustamente esquecido ou menoscabado.
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sábado, 24 de março de 2007
Livro de Sonetos - Vinicius de Moraes
Vinicius de Moraes nasceu Marcus Vinitius da Cruz e Mello Moraes. Posteriormente, ainda aos nove anos, dirigiu-se ao cartório e suprimiu o nome na forma latina, oriundo exclusivamente da paixão de seu pai pelo idioma de Cícero. Apesar de ter sido também diplomata e jornalista, Vinicius consagrou-se como poeta e compositor.
Os sonetos, em sua singeleza, quase sempre serviam para que Vinicius encontrasse beleza na simplicidade, desvendando a ternura e os sentimentos mais profundamente enterrados nas supostas banalidades da vida. Através de seus sonetos Vinicius conseguia facilmente aprofundar-se em temas complexos e significativos, como a morte e, principalmente, paixão e amor.
O “poetinha”, como foi carinhosamente alcunhado, destaca-se ao falar de amor, despejando torrentes de pura sinceridade e explicitude ao versar sobre o mais altivo dos sentimentos. Drummond, que nunca escondeu sua enorme admiração, chegou a afirmar ser Vinicius “o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural".
“Livro de Sonetos” foi primeiramente publicado em 1957, através da edição de Livros de Portugal. Em 1967 publicou-se a segunda e mais substanciosa edição do livro, devidamente aumentada. A coletânea trazida através da editora Companhia das Letras (1991), por sua vez, é riquíssima (vide imagem acima), trazendo inclusive sonetos inéditos. Enfim, a obra é uma oportunidade imperdível para ir-se bem além dos muitíssimos conhecidos Soneto de Fidelidade (“de tudo, ao meu amor serei atento”) e Soneto de Separação (“de repente do riso fez-se o pranto”), ou outros tão conhecidos.
Esta leitura lembra que nunca deve ser olvidado o mundo das poesias, pois não só de prosas vivem as pessoas. A poesia é alimento fundamental a todos os seres humanos, pois, como tais, todos amam, sentem, sofrem e aprendem.
"Livro de Sonetos" é uma obra belíssima e, acima de tudo, indispensável; nunca devendo ser "esquecida" em estantes, permanecendo, ao contrário, sempre que possível ao lado do leito, pois melhor lugar para este livro não há.
Soneto a quatro mãos
(com Paulo Mendes Campos)
Tudo de amor que existe em mim foi dado.
Tudo que fala em mim de amor foi dito.
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.
Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito.
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.
Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.
Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.
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terça-feira, 20 de março de 2007
Crime e Castigo - Dostoievski
Fiódor Mikháilovitch Dostoievski dispensa quaisquer floreios introdutórios. O gênio russo é notoriamente um ícone da literatura mundial, sendo ainda apontado por alguns estudiosos como um dos fundadores do existencialismo. Em suas obras vemos com bastante freqüência personagens que passam por situações mentais extremadas, ao mesmo tempo em que brinda os leitores com profundas exposições da psicologia humana, aproveitando ainda para apresentar os fatores sociais, políticos e econômicos da Rússia à época das narrativas.
Dostoievski é apontado por James Joyce como o homem que, mais que qualquer outro, criou a prosa moderna. Virginia Woolf já afirmou que, excetuando-se Shakespeare, a leitura do mestre russo é das mais excitantes.
As influências derramadas por Dostoievski chegam facilmente aos dias atuais, sendo curiosos exemplos deste fato os filmes “Match Point” de Woody Allen e “Nina”, filme brasileiro dirigido por Heitor Dhalia.
Nos grandes nomes da cultura da humanidade podem ser identificadas claríssimas influências de Dostoievski em Herman Hesse, Nietzsche, Marcel Proust, William Faulkner, Albert Camus, Franz Kafka, Henry Miller, Gabriel García Márquez, dentre vários outros. Sobre Nietzsche é oportuno destacar que a sua importante teoria sobre o super-homem (Übermensch) aparece de forma esboçada nos pensamentos do jovem protagonista de “Crime e Castigo”, mais especificamente na forma de um artigo científico, cujo arcabouço teórico, assim como o artigo em si, tem crucial importância na estória.
“Crime e Castigo” é um minucioso e fascinante relato das angústias vividas pelo pobre e confuso estudante Rodion Românovitch Raskólnikov. O romance é repleto de reviravoltas fabulosas e enérgicos diálogos – pontos altos da trama; tudo sempre encadeado com uma profunda imersão psicológica. Há ainda espaço para vários personagens enigmáticos e não menos interessantes que o protagonista, como, apenas para citar exemplos, Ivanovich Svidrigailov e Porfiri Petrovich.
É uma obra para ser lida e obrigatoriamente relida.
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quinta-feira, 15 de março de 2007
No Bunker de Hitler: Os Últimos Dias do Terceiro Reich
No Bunker de Hitler: Os Últimos Dias do Terceiro Reich (Der Untergang: Hitler und das Ende des Dritten Reiches : Eine Historische Skizze- 2002)
Joachim Clemens Fest, famoso historiador e jornalista alemão, é o autor de “No Bunker de Hitler: Os Últimos Dias do Terceiro Reich”. Fest sempre foi um dedicado estudioso de vários aspectos da Alemanha Nazista, em especial sobre Adolf Hitler, Heinrich Himmler e o arquiteto nazista Albert Speer (inclusive, Joachim Fest é bastante conhecido por ter escrito a completíssima biografia de Hitler, em dois volumes, ambos publicados no Brasil pela editora Nova Fronteira).
Nascido em Berlim em 1926, passou a adolescência fugindo do alistamento na Juventude Nazista. Ao fazer 18 anos optou por entrar para o Exército Alemão, evitando ser forçadamente recrutado para as agourentas Waffen SS (forças especiais inicialmente voluntárias, altamente treinadas e que tiveram crucial papel no Holocausto; na reta final da Segunda Grande Guerra tornaram-se comuns as convocações compulsórias para preencher as fileiras destas SS Armadas). Esta opção foi vista com muito desgosto por seu pai, Johannes Fest, um alemão que desde o princípio já sentira os fétidos odores do nazismo e era fervoroso opositor do regime totalitário de Hitler. O jovem Joachim terminou sua participação no conflito como prisioneiro na França. Após a guerra estudou direito, sociologia, história da arte e literatura alemã – porém, sempre manteve em mente aquele período histórico, por ele intensamente testemunhado em sua juventude.
“No Bunker de Hitler” é uma obra que buscou dirimir várias obscuridades e incongruências de outros relatos sobre os últimos dias do ditador alemão e seus principais asseclas, que comandavam um Terceiro Reich moribundo enquanto se abrigavam em um bunker construído abaixo do prédio da Chancelaria.
Este assombroso livro é considerado a narrativa definitiva dos últimos dias do Reich de Hitler e, ainda mais, consagrou-se seguramente no hall dos livros mais importantes sobre aqueles nefastos anos da história da humanidade.
Ademais, é uma ótima dica de leitura para aqueles que assistiram ao filme “A Queda” (Der Untergang, 2004) – baseado no livro de Fest - e ficaram um pouco confusos com a enorme quantidade de personagens, ou queiram ter um entendimento mais profundo sobre este trágico epílogo da Alemanha Nazista. Recomendadíssimo.
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domingo, 11 de março de 2007
A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua - Jorge Amado
Joaquim Soares da Cunha, oriundo de boa família, muito estimado pelos vizinhos, respeitável e “exemplar funcionário público da Mesa de Rendas Estadual”, sempre impecavelmente bem vestido e com a pasta debaixo do braço. Quincas Berro Dágua, jogador, debochado, freqüentador de botequins baratos, sem lar, sujo, barbado, “rei da gafieira”, “o cachaceiro-mor de Salvador”, “o rei dos vagabundos da Bahia”, o “patriarca da zona do baixo meretrício”.
Como aquele senhor outrora respeitável se tornou o famigerado Quincas Berro Dágua, Berrito para os mais íntimos?
É esta fantástica transmutação que nos revela Jorge Amado em uma de suas obras mais saborosas, que amalgama loucura e realidade, sonhos e fatos.
Leitura agradabilíssima, apesar de curta, e que, exatamente por isso, nos deixa com vontade de muito mais.
Na falta de mais palavras adequadas sobre esta obra, bem como na imperícia em usá-las, valho-me das poderosas considerações de Vinícius de Moraes, como bem consta na contracapa da edição da Record de “A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua” (foto acima):
(Vinícius de Moraes, em “Última Hora”, Rio, 1959)
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quarta-feira, 7 de março de 2007
O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupéry
O Pequeno Príncipe (Le Petit Prince - 1943)
É magnífico como um pequenino livro pode conter tanta filosofia e ser tão significativo. São obras assim – raríssimas – que fazem com que certos amontoados de papel não sejam capazes de ostentar a dignidade da denominação ‘livro’.
Antoine-Jean-Baptiste-Marie-Roger de Saint-Exupéry, escritor que também foi piloto durante a Segunda Guerra Mundial, nos deixou esta bela obra, cheia de sensibilidade ligeiramente enevoada aos olhares incautos e embrutecidos. Isso porque, à primeira e descuidada vista, o Pequeno Príncipe pode aparentar ser apenas um relato pueril.
Todavia, um olhar sensível e um coração vivido podem tornar esta leitura um dos eventos mais ricos a se ter na vida.
Para finalizar, e sem mais delongas, basta dizer que todos os seres humanos que nascessem deveriam receber uma cópia deste livro, de modo a saberem como lidar com as outras pessoas e começar a compreender o amor. Livro absolutamente imperdível.
Ressalte-se aqui apenas o primor da edição publicada pela editora Agir (foto acima), que contém aquarelas feitas pelo próprio autor e que enriquecem consideravelmente a leitura.
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terça-feira, 30 de janeiro de 2007
A Boa Terra - Pearl S. Buck
A Boa Terra (The Good Earth - 1931)
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